quarta-feira, 21 de novembro de 2018

As Sete Linhas na Umbanda Sagrada.


Depois que Zélio Fernandino de Morais partiu, a estruturação inicial das Sete Linhas da Umbanda Sagrada sofreu algumas modificações. Antigamente, eles eram distribuídas da seguinte maneira: YANSÃ; IBEJI; IEMANJÁ; OXÓSSI; OGUN; XANGÔ; NANÃ. No entanto, essa distribuição foi reformulada e atualmente ela segue outra ordem...

Linha de Oxalá: Esta Linha é regida por Jesus Cristo e representa o Princípio da Criação, a Luz Divina que coordena todas as outras. Os Guias principais desta Linha são: Caboclo Urubatão da GuiaCaboclo Tupã, Caboclo Ubiratã, Caboclo Tupy, Caboclo Ubirajara, Caboclo Guaracy, Caboclo Guarani, etc. Estes Guias são os Chefes de Falanges mas, existem os demais Guias que pertencem a esta Linha e trabalham na caridade. São eles: Caboclo Sete Estrelas, Caboclo Pena Branca, Caboclo Águia Branca, Caboclo Tupinambá, Caboclo Aimoré, Caboclo Rompe Nuvem, Caboclo Tamoio, Caboclo do Sol, Caboclo Estrela Guia e outros. O Astro que rege esta Linha é o Sol e tem como Guardião o Anjo Gabriel.
Linha das Águas (Linha das Mães): Esta Linha é regida por Nossa Senhora da Glória, como principal, sincretizada com Iemanjá (Yemanjá). Mas, tem também Nossa Senhora da Conceição, que é sincretizada com Oxum. Esta Linha representa a Divina Mãe, a energia feminina e da Natureza da Água, a gestação e a fecundação. Os Guias principais desta Linha são: Cabocla Jandira, Cabocla Jurema, Cabocla Jupira, Cabocla Jupiara, Cabocla Janaína e outras. Demais Entidades que trabalham nesta Linha são: Cabocla Yara (Iara), Cabocla Indayá, Cabocla Onira, Cabocla Estrela do Mar, Cabocla Iracema, Cabocla Jacira, Cabocla da Praia, Cabocla Sete Ondas, Cabocla Sereia e outras. O Astro que rege esta Linha é a Lua e tem como Guardião o Anjo Yahel. (Iansã está presente nesta Linha, sincretizada com Santa Bárbara.)
Linha de Xangô: Esta Linha é regida por São Jerônimo como principal mas, São João Batista, São Pedro e São Paulo também regem esta Linha como sincretismo de Xangô. Representa a Justiça Divina e a Lei Khármica. Xangô é o Senhor da Balança Universal. Os Guias principais desta Linha são: Xangô Kaô, Xangô Agodô, Caboclo Sete Montanhas, Caboclo Sete Pedreiras, Caboclo Sete Cachoeiras. Outros Guias que trabalham nesta Linha são: Caboclo Pedra Preta, Caboclo Pedra Branca, Caboclo Cachoeira, Caboclo Gira Mundo, Caboclo Rompe Montanha, Caboclo Ventania, Caboclo Rompe Serra e outros. O Astro que rege esta Linha é Júpiter e tem como Guardião o Anjo Rafael.
Linha de Ogun (Ogum): Esta Linha é regida por São Jorge e representa o fogo da Salvação, a Linha das Demandas da Fé, das aflições, das lutas e das batalhas. Os Guias principais desta Linha são: Ogum de Lei, Ogum Yara (Iara), Ogum Megê, Ogum Rompe Mato, Ogum de Malê, Ogum Beira Mar, Ogum Matinata, entre outros. Outras Entidades conhecidas que trabalham nesta Linha são: Ogum Sete Espadas, Ogum Sete Lanças, Ogum Sete Escudos, Caboclo Boiadadeiro, Caboclo Capangueiro, Caboclo Tira Teima, Ogum Rompe Trilhas, Ogum Rompe Mato e outros. O Astro que rege esta Linha é Marte e tem como Guardião o Anjo Miguel.
Linha de OxóssiEsta Linha é regida por São Sebastião, que representa o "Caçador das Almas", o Mestre que ensina e doutrina os filhos que o procuram. Os Guias principais desta Linha são: Caboclo Arranca Toco, Caboclo Arariboia, Caboclo Guiné, Caboclo Arruda e Caboclo Cobra Coral. Outras Entidades que trabalham nesta Linha são: Caboclo Pena Azul, Caboclo Pena Verde, Caboclo Pena Dourada, Caboclo Tabajara, Caboclo Sete Flechas, Caboclo Tupiyara, Caboclo Tupiaçu, Caboclo Mata Virgem, Caboclo Rei da Mata, Caboclo Pery, Caboclo Junco Verde, Caboclo Rompe Folha, Caboclo Paraguaçu, Caboclo Arerê, Caboclo Coqueiro, Caboclo Sete Palmeiras, Caboclo Juremeiro, Caboclo Humaitá, Caboclo Folha Verde e outros. O Astro que corresponde a esta Linha é Vênus e o Guardião é o Anjo Ismael.
Linha de Yori (Ibejis): Esta Linha é regida por São Cosme e São Damião, é a Linha da Ibejada, que são as crianças. Representa a alegria, a luz da Espiritualidade, a ingenuidade e a lealdade infantil. Os Guias principais desta Linha são: Tupãzinho, Ori, Yariri, Doum, Yari, Damião e Cosme. Outros Guias que trabalham nesta Linha são: Crispim, Crispiniano, Mariazinha, Zequinha, Chiquinho, Luizinho, Joãozinho, Paulinho, Luizinha, Ana Maria, Joaninha e outros. O Astro que corresponde a esta Linha é Mercúrio e o Guardião é o Anjo Samuel.
Linha de Yorimá (Pretos-velhos): Esta Linha é regida por São Lázaro e por São Roque, respectivamente, sincretizados com Obaluaiê e Omolu. É a Linha das Almas, representa o Dom da Palavra e da Magia. É composta pelos espíritos que tem a missão de combater o mal e todas as suas manifestações. Os Guias principais desta Linha são: Pai José, Pai Guiné, Pai Tomé, Pai Arruda, Rei Congo, Vovó Maria Conga, Pai Benedito e Pai Joaquim. Outras Entidades que trabalham nesta Linha são: Pai João, Pai Jacó, Vovó Ana, Vovó Cambinda, Pai Cipriano, Pai Simplício, Tia Chica, Nhá Benedita, Pai Chico, Pai Miguel, Vovó Catarina, Pai Mané, Pai Antônio, Pai Tomás, Vovó Luíza e outros. O Astro que corresponde a esta Linha é Saturno e o Guardião é o Anjo Uriel. (Nanã, sincretizada com Santa Ana, participa desta Linha.)

Estas são as Sete Linhas de Umbanda e seus Guias principais. Existem outros Guias que não foram citados, mas é difícil citar todos os nomes das Entidades que trabalham nas Giras da nossa querida Umbanda.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

"Sultão das Matas"

Aquele que comanda todos os animais.

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"Eu nasci entre o Povo Maia, há mais de três mil anos... Dominamos as Américas. Éramos extremamente evoluídos. Mas, vocês já sabem disso. Nosso Reino era imensamente vasto, tão vasto, que seria impossível descrever seu tamanho e sua grandiosidade.
Desde cedo eu fui criado para ser um líder em nossa região. Por isso, tive o privilégio de conhecer todo o Reino. Meu pai era um Conselheiro do Chefe Supremo e eu o acompanhava sempre... Com o tempo, pude me locomover sozinho por onde quisesse.
Para ser definido o líder de uma Casta, todos os meninos passavam por testes para verificar seus dons. Como o nosso Povo era muito numeroso, éramos divididos em Castas - vocês poderiam chamar de 'Tribos'. Em cada Casta, pelo menos um ou dois meninos eram escolhidos.
Quando tornei-me adulto, tive a liberdade de viajar para outras terras, então, pedi permissão e parti... Naquela época, os pais jamais interferiam na decisão de um filho com predestinação de liderança. Eles sabiam que os deuses comandavam tudo.
Nosso povo sempre acreditou em divindades superiores e em forças maiores. Também sempre cultuamos as energias da Natureza e do Universo. Para nós, o perfeito equilíbrio entre o bem e o mal estava em honrar o que foi estabelecido.
Quando deixei minha Nação, olhei uma última vez para trás... Todos vocês já fizeram isso, tenho certeza. Então, segui em direção do Rio que divide as Nações. Ao atravessar o Grande Rio eu entraria em território desconhecido.
Cheguei a uma planície onde haviam muitos animais de muitas espécies que vocês desconhecem, porque já estão extintos. Aproveitei para descansar, caçar, me alimentar e conhecer a região... Algumas onças da espécie jaguar aproximaram-se e eu emiti um sinal. A líder do bando veio até mim.
A partir de agora vocês conhecerão o meu dom e porquê fui escolhido líder...
Com a mão espalmada em sua direção e os olhos para o chão chamei-a. Ela respondeu... Ela agora me entendia. Eu podia fazer isso com todos os animais da floresta: répteis, anfíbios, aves, mamíferos ou insetos...
Eu podia manipular as abelhas sem ser ferroado por elas; podia extrair o veneno das cobras sem ser picado; podia montar um cavalo selvagem, que ele me levaria onde eu quisesse; enfim, eu podia morar na selva e viver como quisesse... Mas, eu tinha um compromisso com meu povo e apenas um determinado tempo para ficar longe.
Prossegui minha jornada por mais três sóis e iniciei meu retorno. Vi coisas diferentes pelo caminho e teria muitas histórias para contar ao meu povo. No fim do primeiro sol, estava descansando em uma superfície acidentada de um planalto, quando fui surpreendido pela agitação dos animais, que queriam me avisar de alguma coisa...
De repente fui arrastado, estava capturado no meio de uma espécie de rede. Tentei lutar e me soltar, mas não consegui... Fui sendo arrastado pelo caminho. Em um solavanco me ergueram e me colocaram em uma espécie de barco e partiram... Quando retiram a rede e me jogaram ao chão eu estava em uma terra diferente.
Eles não falavam minha língua e eu não falava a língua deles. Vestiam-se com peles. Usavam chifres na cabeça e armas que pareciam machados. Mais tarde eu descobri que eram Vikings... Com o tempo percebi que eles queriam aprender meus costumes para conquistar nossas terras.
O mesmo dom que me manteve vivo durante minha jornada ainda fazia parte de mim. Então, pensei em como poderia usá-lo para escapar dessa terra distante...
Já haviam se passado quatro sóis completos de minha permanência no meio dessa gente. Eu os considerava como bárbaros capazes de qualquer coisa. Imaginei que se chegassem até nossa terra seriam capazes de qualquer coisa.
Quando finalizou o quarto sol, eu coloquei meu plano em prática e iniciei minha fuga. Consegui que roedores roessem minhas cordas. Um cavalo veio até mim... Outro cavalo me trouxe água e comida. E os demais animais criaram uma bagunça na Vila dos Bárbaros Vikings.
O cavalo que me serviu de montaria me levou até o mar... Agradeci a ele e entrei no mar. Nesse momento, os Vikings já deviam ter sentido minha falta e percebido a minha fuga. 
Eu nunca tentei comandar os animais aquáticos, porque esse era um privilégio de poucos. Seria minha primeira experiência, mas eu precisava tentar... Fiz círculos na água com as duas mãos e emiti sinais sonoros com a boca e, em pouco tempo, dois golfinhos se aproximaram de mim. Segurei em suas barbatanas e eles me conduziram até uma ilha.
Nessa ilha fiquei por uma ou duas luas até descansar, e meus amigos golfinhos ficaram por perto. Quando eu estava restabelecido fiz uma jangada e, com a ajuda dos golfinhos, segui viagem...
Eu cheguei em minha Nação dez sóis depois de minha ausência. Meu povo quase não acreditou no que viu... Eu não percebi mas, quando entrei em minha cidade, me acompanhavam: dezenas de leopardos, muitas onças pintadas, várias suçuaranas e diversos outros animais.
Então, começaram a exclamar: 'Ele é um Tepeyollotl! Ele é um Rei das Matas.' (E todos se ajoelharam...) Minha mãe correu e me abraçou e meu pai explicou: Meu filho, eles te consideram um Tepeyollotl..."

O Caboclo Sultão das Matas, não utiliza o termo "Tepeyollotl" por ser de difícil pronúncia. Ele também não usa o termo "Rei" por se referir a um Cargo Político. Por isso, usa o termo "Sultão", pois este se refere a uma Autoridade Espiritual. A complementação do nome "Sultão" das Matas, indica que ele é um Guia Espiritual que atua na Linha de Oxóssi.

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*OBS > Nesse post vocês observam duas imagens: a primeira, refere-se a aparência espiritual; a segunda, refere-se a aparência de sua existência carnal como "Tepeyollotl".

domingo, 30 de setembro de 2018

Exu Cigano


"Eu trabalho na energia das duas bandas: A Banda da Direita e a Banda da Esquerda. Eu tenho obrigação de atuar na Esquerda como Exu, como primeira energia. Mas, em meus trabalhos, complemento minha ação com a energia da Direita. Isso quer dizer que em meu trabalho como Exu Cigano, eu posso atuar em todas as Linhas da Direita ou da Esquerda simultaneamente.
Por exemplo, se realizo um trabalho de cura, utilizo a vibração de Exu e de Oxóssi; se realizo um trabalho de limpeza, minha vibração exigirá a atuação das Mães d'Água; se realizo um resgate no Plano Espiritual, pedirei auxílio à Obaluaiê... Dessa forma, nunca estarei sozinho ou desamparado.
Agora que expliquei como desenvolvo meu trabalho, contarei a história de minha penúltima encarnação. Eu sei que, normalmente, relatamos nossa última existência... Mas, minha última vida foi uma vida comum de alguém que viveu para quitar uma dívida Khámica. Quitei a dívida e pude trabalhar nesse lado de cá como Exu Cigano.
Em minha penúltima existência terrena, nasci na Itália do século XVII, junto ao Povo Calon. Para quem não sabe, os Calon representam uma das Raças Ciganas, junto ao Povo Rom, Sinti e outros... Nós também somos chamados de Kalé. Eu nasci na Época da Inquisição Europeia e de uma forte perseguição aos Povos Ciganos. Por conta disso, estávamos sempre nos mudando e viajando por territórios desconhecidos. Meus pais eram negociantes de peças de couro curtido, de várias origens.
Desde muito cedo eu aprendi a manejar facas, adagas e punhais com muita maestria. Eu era um exímio atirador à distância. Por isso, me chamavam de Zumavipe, que quer dizer desafiar... Eles acreditavam que bastava me desafiar para eu ganhar. E era verdade. Quanto mais desafiado eu era, mais eu me superava.
Os anos passaram e nós conseguimos nos esconder da Inquisição. Eu tornei-me um homem e herdei os negócios de meu pai, me casei e tive dois filhos (um casal). Eu tinha muito orgulho de minha gente e de minha família. Um dia, porém, tudo mudou... Estávamos acampados numa região onde, hoje, se localiza a Bélgica. Na época essa região era chamada apenas de Países Baixos, por agrupar diversos territórios.
Nesse local, fomos delatados e aprisionados. Durante a luta, eu sozinho com meus punhais, consegui matar setenta homens. Mas, eles eram mais de quatrocentos e em pouco tempo fui rendido... Nós fomos levados à sede da Inquisição, na Espanha. Fomos julgados e condenados ao cadafalso. Morremos todos juntos, inclusive meus filhos - tão pequeninos e inocentes...
Ciganos, piratas, feiticeiros, rebeldes ou todos aqueles que se opusessem à Coroa e à Igreja (qualquer Igreja) eram condenados. Forca para traição. Fogueira para bruxaria. Decapitação para os blasfemadores. Esquartejamento para os líderes de rebeliões. E tantas outras formas de condenação. Eles eram bastante criativos quando se tratava de condenar...
Na minha última existência nasci e morri como escravo em terras brasileiras. Agora vocês entendem porque sou um Exu e entendem porque sou um Cigano."

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Cosme, Damião, Doú, Talabe, Alabá, Crispim e Crispiniano.

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Os Ibejis de Umbanda seguem o sincretismo dos Erês de Candomblé. No Candomblé, os gêmeos Erês são filhos de Xangô com Iansã (Yansã). Os sete Ibejis de Umbanda seguem uma tradição muito antiga, baseada numa Lenda que conta a história de São Cosme e São Damião.
No Candomblé, é de conhecimento que Xangô e Iansã (Yansã) tiveram, primeiramente, Taiwó e Kehindé; depois, nasceu Odowú. Taiwó morreu afogado. Kehinde morreu de tristeza e Odowú caiu doente de saudade dos irmãos...
Já a Lenda dos Sete Irmãos, conta que a mãe de São Cosme e São Damião teve mais 2 filhos gêmeos: Crispim e Crispiniano; que também seguiram os passos dos irmãos mais velhos, Cosme e Damião, seguindo o Cristianismo... Além dos 4 filhos gêmeos, ela teve outros três: Talabe, Alabá e Doú. Mas, os registros históricos referem-se aos irmãos de Cosme e Damião, como: Antimo, Leôncio e Euprepio. Sendo Crispim e Crispiniano de outra família...
E de onde surgiram os sete nomes? Os nomes Cosme e Damião são de origem Ciliciana. Doú provém de Idowú, de origem Africana. Crispim e Crispiniano são de origem Romana. Talabe provém de Talab, do Oriente Médio. E Alabá possui sua origem no Árabe - Allah Abba. Talabe e Alabá são, provavelmente, uma referência aos locais de peregrinação dos irmãos Cosme e Damião.
A história relata que Cosme e Damião eram médicos que se converteram ao Cristianismo e auxiliavam os pobres, principalmente, idosos e crianças. Crispim e Crispiniano eram sapateiros que distribuíam caridade e também se converteram... A coincidência nas duas histórias está na conversão dos irmãos e no auxílio aos pequeninos e menos favorecidos. Outro porém, é a época em que eles viveram: século III, que representa o começo do Cristianismo como religião.
Como a Umbanda saúda a todos os Espíritos, sejam de crianças, de índios ou de outras raças, incluiu em sua Festa de Ibeji todos os irmãos dos Santos Católicos, ou seja, os sete irmãos: Cosme, Damião, Doú, Talabe, Alabá, Crispim e Crispiniano - mesmo não sendo irmãos entre si...
Essa crença de oferecer uma Festa aos Espíritos Infantis tornou-se tão popular por ser uma homenagem:
- Em agradecimento à todas as crianças que deram a vida para salvar Jesus da perseguição de Herodes;
- Para honrar todas as crianças e inocentes que morreram nesses milhares de anos...
O número Sete é Cabalístico e faz referência à Hierarquia Celestial. Todos os Anjos são em número de sete, portanto, as crianças que morreram inocentemente, também são Anjos. Por isso, durante a festa sempre são distribuídos doces em quantidades iguais de sete.
Quanto a datas: São Cosme e São Damião são comemorados em 26 de setembro. Eles foram canonizados em 630. No Mundo todo, eles possuem datas diferentes de comemoração: 26 e 27 de setembro, 1º de julho e 1º de novembro. Eles foram mortos em 303, na Síria...
São Crispim e São Crispiniano são comemorados em 25 de outubro. Eles foram canonizados em 1645. Eram humildes sapateiros que seguiam o Cristianismo. Foram perseguidos e mortos durante o século III.
A Igreja Católica canonizou apenas os irmãos gêmeos: Cosme e Damião, Crispim e Crispiniano. Por conta disso, a Igreja aceita, apenas, a imagem dos santos com "dois irmãos" em sua iconografia - que representa que eles são gêmeos.
O costume de distribuir doces e guloseimas às crianças ocorre no dia 27 de setembro... Data que foi originalmente adotada pelo Candomblé e, depois, pela Umbanda.

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sexta-feira, 21 de setembro de 2018

A história de Claudia Soares de Castañeda.

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Eu prossigo agora com a narrativa do restante de minha história de vida...

"Claudia nasceu em solo espanhol, de uma família tradicionalmente católica. Os Soares eram famosos criadores de porcos de diversas raças, oferecidos aos banquetes reais, em comemorações diversas. Soares é um nome que deriva de Soeiro, que significa: "criador de suínos". Quando conheci Claudia ela estava com dez anos e eu já havia completado dezesseis. Apesar de ser uma menina, já era possível ver que se tornaria uma mulher de beleza exuberante.
Nossos pais realizavam troca de produtos e, durante suas negociações, eu e Claudia nos observávamos. Com o passar dos anos, nos tornamos amigos. Nossas famílias se visitavam e fomos aprofundando nossa amizade. Claudia já era uma moça e atraía a cobiça dos homens da região. Um jovem comandante da Coroa Portuguesa estava sempre rondando a família Soeiro, na tentativa de desposar Claudia.
Aqui, porém, houve uma grande reviravolta na história... Nessa época, Portugal e Espanha começaram a guerrear, disputando territórios, coroas e bens. Casamentos entre fidalgos foram desfeitos, gerando mais atrito entre os dois reinos. Quando as disputas começaram a ficar mais intensas, eu e meu pai decidimos evitar a região por um período. Então, fizemos uma última visita aos Soares, para deixar produtos excedentes.
Nós ciganos, somos muito intuitivos e minha mãe nos alertou para que não fizéssemos essa viagem, pois estava com maus pressentimentos. Mas, nós somos também muito persistentes e quando nos decidimos, agimos de qualquer maneira. Dessa forma, chegamos em Toledo, próximo ao Rio Tejo. Quando nos aproximamos de Alcázar de Toledo, percebemos vários frontes de guerra. Então, decidimos seguir durante a noite até a residência do Senhor Soares.
Com a escuridão da noite pudemos nos ocultar e chegamos à residência do Senhor Juarez Soares. Ele e a esposa Eulália estavam acordados e preocupados com a situação. E diante de tudo que estava acontecendo, nos pediram que tirássemos Claudia e seu irmão Ygor às escondidas, pois temiam por uma invasão. Ygor tinha a metade da idade de Claudia, mesmo assim, era esperto e corajoso. Os dois irmãos não queriam deixar a família. Portanto, era compreensível que não quisessem se afastar. Foi difícil convencê-los do perigo que corriam...
Logo que deixamos a fazenda percebemos ao longe uma invasão e labaredas de fogo consumindo a plantação mas, nada podíamos fazer. Os dois choravam muito. E nós, para protegê-los, tentamos nos afastar o mais rapidamente possível. Andando na surdina chegamos ao nosso acampamento. Minha mãe nos aguardava apreensiva, pois sabia que o pior havia acontecido.
Com o passar do tempo, Claudia e Ygor, acostumaram-se a vida local e passaram a conviver com as organizações diárias do acampamento. Porém, não ficávamos na mesma região por muito tempo e passamos a nos mudar mais frequentemente. E nossa vida prosseguia... Após certo período de adaptação, uma cerimônia de iniciação foi realizada para Ygor e Claudia, onde os dois passaram a fazer parte de nossa família cigana.
Assim, transcorreram sete anos, Ygor tornou-se um rapazote e Claudia era uma linda mulher. Em uma dança com punhais, joguei meu punhal ao chão, aos pés de Claudia. Ela o apanhou e guardou no meio dos seios. Depois dançou com uma flor na boca e a lançou para mim. Era um pedido de casamento. Ela aceitou e eu aceitei.
Dissemos sim em outra cerimônia realizada pelo Chefe de nossa Tribo, onde enchemos nossa taça de vinho e bebemos juntos. Fizemos o pacto de sangue e amarramos nossas mãos. Éramos um só. Dançamos e festejamos e todos comemoraram... Claudia era amada por todos. Quando nos recolhemos todos silenciaram e esperaram, como era costume. Mostrei o lenço e todos gritaram: Optchá!
Nove meses depois nasceu um menino lindo que se chamou Enrico, mas todos só sabiam dizer "Rico". Esses anos foram muito felizes mas, passaram rápidos. Até me esqueci das guerras e dos perigos... Então, Claudia ficou grávida mais uma vez. Uma menina, que não nasceu. Porém, descobrimos que foi melhor assim, porque as perseguições ao Povo Cigano (e aos demais povos) estavam se tornando cada vez mais efetivas. E nós começamos a nos esconder cada vez mais.
Chegou um momento em que a Europa ficou tão preenchida de soldados e Inquisidores, que seria impossível contar seu número. Muitas famílias Ciganas e de outras origens estrangeiras começaram a fugir da Europa para as Américas, por ser o mais longínquo de todos os lugares. Quando conseguimos preparar todo o acampamento e armar nossa fuga, fomos presos no Cais do Porto de Marselha. Alguns, ainda, conseguiram embarcar rumo ao Novo Continente. Eu e todos os meus familiares, fomos presos e levados ao calabouço.
Sem privilégios, sem água, sem comida e sem direito a julgamento. Fomos torturados por dias... Mas, de todos quem mais sofreu foi Claudia, ao ver Enrico acorrentado em um canto do calabouço, definhando aos poucos. Se ao menos ela pudesse abraçá-lo e confortá-lo... Uma criança pouco resiste em meio a tanto sofrimento, mas Enrico suportou olhando para a mãe. E Claudia cantou para ele uma canção de ninar e o viu partir...
Cada um de nós entregou-se aos poucos nos braços da Morte... Evitarei narrar os pormenores porque são fatos muito doloridos, para nós e para vocês que leem essa narrativa. Basta dizer que, quando fechei os olhos, Claudia ainda agonizava chorando por Enrico.
Aqui preciso dizer que Ygor, irmão de Claudia, conseguiu escapar no momento de nossa captura. Mas, a história dele será contada em outro momento."

E assim eu (Pablo Juan de Castañeda), narrei a História de Claudia Soares de Castañeda...

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sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Cigano Pablo Juan de Castañeda

ou "Juan Pablo" (Alguns preferem me chamar assim...)

"O nome Pablo era muito comum entre nosso Povo e da mesma forma o nome Juan. Entre nós era normal recebermos dois nomes de batismo. Um nome indicava a origem materna e o outro nome a origem paterna. Ou seja: Juan, provinha de 'Casa de Juan' ou dos devotos de São João Batista como era o caso de minha família paterna. São João Batista, aquele que anunciou e batizou Jesus, era muito querido por nosso povo. Pablo provinha da 'Casa de Pablo' ou dos devotos de São Paulo, o grande guerreiro de Cristo e representava a minha família materna.
Nós seguíamos a Tradição Judaico-cristã, mas, respeitávamos nossos antepassados e seguíamos as tradições da Igreja Ortodoxa Oriental também... Isso destoava do que a Igreja Tradicional pregava na época, pois, haviam as Guerras Santas e a disputa por territórios. Nossa família era de uma linhagem conhecida na Síria Tradicional mas, devido às perseguições aos Cristãos, nos mudamos para a Europa. Os árabes eram mouros e a maioria dos europeus eram cristãos. Nossa família estava dividida em uma guerra onde éramos Árabes expatriados, não-mouros e com premissa cristã. Explico tudo isso para que vocês entendam como era difícil viver naquela época, onde não seguíamos a tradição da Pátria Muçulmana, mas, também não éramos considerados Cristãos.
Meu pai trabalhava com o comércio da madeira do castanheiro e, por isso, seu sobrenome passou a ser Castañeda. Quando minha família se mudou para a Europa eu era um adolescente e passei a auxiliar meu pai em seu ofício. Também comercializávamos jóias e outros artefatos. Viajávamos constantemente para evitar perseguições, porque assim evitaríamos qualquer elo com as pessoas locais. E isso impedia que elas soubessem sobre nós ou nossas vidas.
Cresci entre muitos países, conheci muitas culturas mas, nenhuma tão profunda e vasta quanto a nossa. Durante uma dessas viagens conheci uma bela jovem chamada Cláudia Soares. E com ela me casei anos mais tarde. Apesar de não ter nascido cigana, ela foi adotada pelo meu povo após a morte de seus pais. Nossa vida foi muito boa, mesmo enfrentando dificuldades e perseguições.
Em outra hora contarei sobre minha vida conjugal e o final de minha existência como 'Gitano'. Hasta brevedad!"

quinta-feira, 5 de junho de 2014

A Energia Vital das Plantas.


As plantas possuem a Semente Primordial da Vida. Elas nos oferecem alimento, sustento, cura e proteção.
Quando a Terra foi gerada pela mão amorosa do Criador, para abrigar a Raça Humana, Ele determinou que a mesma se enchesse de Vida.
Em pouco tempo, a vida brotou da terra! As plantas preencheram todos os espaços, purificando a atmosfera, nutrindo o solo e preparando o alimento para o homem.
Antes de criar o homem, o Criador distribuiu as plantas sobre a Terra, para que elas "inundassem" o Planeta com vida em abundância.
Ou seja, a bioenergia proveniente das plantas abastece continuamente a vida... Porque as plantas carregam o gérmen que abastece o Planeta com sua energia vital.
Por isso, precisamos entender que a vida de todos os Seres Vivos depende da vida das Plantas!
A vida teve início na Terra porque as plantas existiam... Por isso, enquanto as plantas existirem, o Planeta também existirá!
Quando os índios contam suas Lendas, relacionando cada Planta a uma História, eles estão honrando o Mistério da Criação.
Esse Mistério sustenta todo o Planeta, porque mantém a continuidade do Ciclo da Vida!
Infelizmente, o Ser Humano ainda não entendeu que a sua vida está interligada e inter-relacionada à vida da Terra... Esse é o mistério da Criação: estamos todos conectados!

sábado, 31 de maio de 2014

Ifá ~ Espírito Santo


Dia do Espírito Santo (ou Dia do Divino Espírito Santo) é uma Celebração de Consagração ao Espírito Santo, celebrada em 31 de maio.
No Sincretismo Religioso, Ifá corresponde ao Divino Espírito Santo. Essa correspondência existe, porque Ifá oferece o Dom da Clarividência para o merecedor de suas Dádivas, assim como o Espírito Santo é a Dádiva Divina dos Dons.
Lembrando que Ifá representa o Oráculo do Jogo do Búzio e Orunmilá representa a ligação entre o Orun-Aye (Céu-Terra).
Para os Yorubás, Ifá é o próprio Oráculo, enquanto Orunmilá é o Orixá. Da mesma forma que o Espírito Santo representa a manifestação do Espírito de Deus.
Ou seja, através dos Búzios, Ifá oferece as respostas necessárias para cada atribulação e Orunmilá faz a intermediação.
A saudação para o Orixá Ifá-Orunmilá é Mopê Ifá... Mopê Orunmilá!


HISTÓRIA DA FESTA DO DIVINO

A origem remonta às Celebrações Religiosas realizadas em Portugal a partir do século XIV, quando a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade era festejada com banquetes coletivos...
Os Banquetes eram chamados de "Bodo aos Pobres", com farta distribuição de comida e esmolas. Essa Tradição ainda se cumpre em algumas Regiões de Portugal.
Aqui no Brasil, a Celebração é uma das mais tradicionais da Religião Católica. A Festa do Espírito Santo é celebrada em todo o Brasil, utilizando-se de alguns simbolismos: a pomba branca, a coroa, e a distribuição de esmolas.
O dia do Espírito Santo é marcado pela esperança, com a chegada de um Novo Tempo para as pessoas, com maior: igualdade, fraternidade e irmandade para todos. 


A celebração do Divino Espírito Santo teve origem em uma promessa que a Rainha Isabel de Aragão fez entre os anos de 1282 e 1336. Ela prometeu ao Divino Espírito Santo peregrinar pelo mundo com uma cópia da coroa com uma pomba no topo da mesma; arrecadando donativos em benefício da população pobre...
De acordo com os documentos, a Rainha Isabel não se conformava com o confronto entre o pai (Rei) e o filho (Príncipe Herdeiro) na luta pelo trono. O Rei pretendia passar a coroa para seu filho bastardo, Afonso Sanches.
Diante do conflito, a rainha Isabel passou a suplicar ao Divino Espírito Santo pela Paz entre seu esposo e seu filho. Esse gesto da Rainha evitou um conflito armado, denominado "A Peleja de Alvalade".


Rainha Santa Isabel de Aragão

"DIA DE PENTENCOSTES"

O Dia de Pentecostes não é o mesmo dia do Divino Espírito Santo, salvo em algumas exceções onde a data coincide. Pentecostes representa o primeiro encontro dos Apóstolos à espera do Espírito Santo de Deus. Ele ocorre no 50º dia após a Páscoa e é chamada de "Batismo no Espírito Santo".
O Pentecostes é uma Festa antiga Calendário Bíblico (Ex. 23;14-17 e 34;18-23) e recebia vários nomes:
- Festa da Colheita ou Sega - no hebraico "hag haqasir". Por se tratar de uma colheita de grãos de trigo e cevada. (Ex. 23;16).
- Festa das Semanas: no hebraico "hag xabu´ot". O período de tempo entre a Páscoa e esta festa, é extamente de sete semanas. Esta festa acontece cinquenta dias depois da Páscoa, iniciando com a colheita da cevada e encerrando com a colheita do trigo (Ex. 34;22; Núm. 28;26; Deut. 16;10).
- Dia das Primícias dos Frutos: no hebraico "yom habikurim". Este nome tem sua razão de ser na entrega de uma oferta voluntária a Deus, dos primeiros frutos colhidos da terra (Núm. 28;26).
A oferta das primícias acontecia em cada uma das três principais festas do antigo calendário bíblico:
-> Na primeira: a Páscoa, entregava-se uma ovelha nascida naquele ano;
-> Na segunda: a Colheita ou Semanas, entregava-se uma porção dos primeiros grãos colhidos;
-> E, finalmente, na terceira festa: Tabernáculos ou Cabanas, o povo oferecia os primeiros frutos da colheita de frutas, como: uva, tâmara e figo, especialmente.
Os nomes hebraicos - hag haqasir e hag xabu´ot - perderam as suas aplicações e foram substituídos pela denominação "Pentecostes". Como o Império Grego passou a ter hegemonia em 331 a.C., é provável que o nome Pentecostes tenha ganhado popularidade a partir desse período. Nesse ano o dia de Pentecostes será comemorado no dia 08 de junho. 
Durante o Pentecostes os Apóstolos ficaram cheios do "Espírito de Deus" e manifestaram seus Dons. Os Dons do Espírito Santo são descritos em várias passagens do Novo Testamento.

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sexta-feira, 30 de maio de 2014

Pai Serafim de Aruanda

O Mensageiro de Ifá.


Serafim nasceu em uma Senzala Carioca, no ano de 1673. Seus pais eram escravos convertidos ao Catolicismo e, por isso, ele recebeu o nome de "Serafim" (o Mensageiro do Senhor). Ele foi uma criança travessa mas obediente, que aprendeu desde cedo o Catecismo. Mas, algo dentro dele se incendiava quando ouvia falar dos Orixás. E assim, sempre que podia, Serafim ia até a casa de Nega Nhonha, a Benzedeira da Senzala. Ele lhe pedia que contasse as histórias dos Santos Africanos e de suas Tribos.
Nega Nhonha percebeu que ali estava alguém para prosseguir com a sua missão e começou a ensinar ao menino tudo o que sabia da tradição. Procurou a mãe de Serafim e lhe pediu permissão para educar o menino. Dona Josefa, a mãe de Serafim, fez apenas uma ressalva: não queria que o menino sofresse perseguições. Então, Nega Nhonha ensinava; mas, toda vez, pedia a Serafim que não comentasse com ninguém o que aprendia...
Quando Serafim completou 17 anos, o ano de 1700 iniciou... D. Josefa ficou doente e parecia ter pouco tempo de vida. Antes de morrer ela pediu ao filho: "Meu filho, quando você puder fuja dessa vida, vá para o Quilombo e pratique a arte de nossos Ancestrais. Não esqueça do que aprendeu por aqui, mas também não esqueça nossas raízes". Serafim viu sua mãe morrer e ficou só no Mundo. Nunca soube quem era seu pai, pois ele foi vendido logo após seu nascimento.
Serafim já ouvira falar dos Quilombos mas, era difícil fugir da Senzala. Aqueles que haviam tentado, foram capturados, e açoitados até a morte, para servir de exemplo aos demais. Mesmo assim, Serafim começou a sentir sua vontade de fugir cada vez maior e incontrolável... Um dia programou sua fuga junto com outros negros. Eles partiriam para um Quilombo nas bandas das Minas Gerais, um local novo e ainda desconhecido.
O dia combinado chegou e ele muniu-se de coragem. Prepararam tudo com antecedência e durante a noite agiram conforme o plano. Muitos capatazes ficavam a espreita mas, eles haviam colocado uma espécie de sonífero na bebida deles e estavam aguardando fazer efeito... Quando a bebida fez efeito, eles se reuniram e partiram.
Os escravos seguiam a pé, pelo meio das matas. Eles sabiam que quando o dia amanhecesse seriam perseguidos a cavalo pelos capatazes. Um dos foragidos conhecia as matas e o caminho para o Quilombo, pois já havia seguido com outro grupo certa vez, mas, foi capturado - ele sobreviveu porque se entregou e não lutou, então, suas chibatadas foram mais amenas.
Com três dias andando a pé, ainda faltava muito para chegar... Eles seguiam devagar e na espreita, mantendo a cautela para não serem descobertos. Naqueles tempos, eles poderiam ser presos por qualquer fazendeiro e entregues ao antigo patrão mediante recompensa. Portanto, eles não podiam ser vistos por nenhuma pessoa.
Muitos de sua raça eram contratados dos patrões para entregar os fujões, então, eles não podiam confiar em ninguém que não fosse do grupo. O grupo conseguia avançar em torno de 50 Km por dia e, no final de uma semana, chegaram ao destino... Eles foram bem recebidos pelo Chefe do Quilombo e descobriram as vantagens de viver em meio aos "calhambolas".
Os Quilombos das Minas Gerais, diferente de outro Quilombos, possuíam algumas vantagens: eram próximos às feiras, podiam comercializar seus produtos e não eram perseguidos pelos Senhores do Mato. Minas Gerais estava crescendo muito e toda mão de obra era bem vinda. Assim, quem vivia nos Quilombos comercializava livremente com os mineradores e podia frequentar as Feiras.
Foi nesse meio que Serafim encontrou sua história e reconstruiu sua vida. Começou trabalhando como minerador e trocando com os capitães seus achados mas, em breve, sua vida mudaria novamente... Dois anos depois de estar no Quilombo, uma pessoa chegou gritando às pressas por alguém que soubesse curar mordida de cobra. Havia no Quilombo uma Mãe Preta que benzia, que caiu adoentada e não atendia mais...
Serafim, muito timidamente, ergueu sua mão e disse: "Eu sei." Os demais até duvidaram, pois ele ainda era jovem e não parecia um benzedor. Mas, na falta de recursos, qualquer um servia... O negro correu e pegou Serafim pela mão, levando-o até a vítima, que já estava semi-morta. Era uma bonita moça, grávida de uns sete meses. Serafim afastou-se, foi até umas plantas, colheu umas ervas, macerou-as e pediu água quente. Fez um chá e reservou. Com um canivete, fez uma cruz no local da picada e apertou... Depois colocou o sumo das ervas aquecida e enfaixou com um pano. Deu o mesmo sumo para a moça beber e avisou: terei que fazer a criança nascer para que a mãe possa se recuperar melhor.
Naquele tempo, criança de sete meses não sobrevivia e o pai escolheu a vida da mãe. Serafim tinha outros planos e clamou aos seus Orixás pela vida do rebento. Fez suas orações e mandigas e começou a pressionar o ventre da moça. Em pouco tempo ouviu-se o choro de uma criança - era um menino. Serafim disse: tragam leite de cabra e chá de arruda. Deu o chá de arruda para a moça que vomitou muito... Lavou suas parte íntimas com o chá misturado ao sumo e envolveu-a em faixas. Pediu cobertor e disse: ela precisa descansar. O leite de cabra é para o bebê, ele não pode beber leite humano ou de vaca. Enfaixem bem o bebê e não o deixem tomar qualquer friagem ou sol, por sete dias. Somente depois disso, podem trocá-lo e levá-lo a outro lugar...
Depois de uma semana, mãe e filho estavam recuperados e a fama de Serafim correu Quilombos. Começaram a vir pessoas doentes de todas as regiões e até mulheres com problemas para parir procuravam por Serafim. Todos confiavam nele, pois ele era muito respeitoso e as mulheres não corriam qualquer risco. Assim, os anos passaram e Serafim tornou-se o "médico" dos Quilombos. Mas, brancos também o procuravam, quando a medicina dos homens não funcionava mais. Ele se tornou tão respeitado que até os Sinhozinhos o mandavam chamar se algum problema mais sério caísse sobre suas fazendas.
Dez anos depois, Serafim ainda era um homem solteiro. Mas, ele precisava da ajuda de alguém, pois seus serviços eram muito solicitados. Um dia chegou no Quilombo uma negra fugida de Pernambuco. Ela estava muito judiada e Serafim não conseguiu salvá-la. Ela tinha uma filha de quinze anos e disse pra ele: "Por favor, tome minha filha como esposa, pois sei que você é sozinho. Eu vejo que você é um bom homem e precisa de alguém para ajudá-lo. Ela sabe fazer de tudo e poderá auxiliá-lo nos atendimentos." Serafim temia casar-se, pois havia visto o sofrimento das mulheres e isso o incomodava. Sua mãe havia sido violentada muitas vezes e ele guardava essa dor consigo. Muitos não sabiam, mas ele não havia dormido com nenhuma mulher. Quando a mãe da moça morreu, ele levou-a para morar com ele e não a tocou...
Com o tempo, ela aprendeu tudo e o auxiliava nos atendimentos. Ninguém sabia que eles viviam como irmãos. Mas, uma noite, Margarida (esse era o nome da jovem) foi até leito de Serafim e disse: "Você não me deseja?" Ele respondeu: "Fiz uma promessa aos meus deuses para que eles me ajudassem nas curas e prometi não me deitar com ninguém." Margarida respondeu: "Façamos outra promessa... Todos os nossos filhos serão Deles e Eles terão servos fiéis, pois os educaremos para isso." Então, Serafim respondeu: "Preciso de três dias..." Serafim, instruiu Margarida e se ausentou para as matas por três dias. Fez seus rituais e conversou com os Orixás. Então, uma pomba branca lhe pousou no ombro e arrulhou em seu ouvido. Era uma resposta de Ifá e Serafim sabia o que devia fazer.
Ele voltou ao Quilombo e disse a Margarida: "Podemos nos casar. Nossos filhos serão como os Odus do Búzio." E eles tiveram dezesseis filhos e cada filho pertencia a um Orixá. Quando o último filho completou 16 anos, Serafim o preparou e avisou: "Você ocupará meu lugar." Ele era filho de Ifá e chamava-se Orumimaia. Serafim, morreu aos 72 anos em seu leito, quando todos os Orixás lhe saudaram e disseram: "Você fez bem. Você cumpriu sua missão!" Serafim fechou os olhos para a terra e abriu os olhos espirituais, passando a cumprir uma nova missão: a de Pai Velho.

sábado, 24 de maio de 2014

Pombagira da Madrugada

Quem eu era e quem eu sou!

"Essa é minha história, como eu vivi e como me tornei uma Pombagira. Desde muito nova eu fui criada por minha madrinha - mulher de frios costumes cristãos, muito rígida e dissimulada. A sociedade a tratava como benfeitora mas, na verdade, ela usava seu nome e suas posses para acumular riqueza e destruir famílias. Com a promessa de fornecer uma boa educação às moças do interior, ela as batizava quando pequenas e depois as buscava para morar com ela. Mas, a realidade era bem diferente...
Eu fui uma dessas moças pobres, que a família acreditou na promessa de uma vida melhor. Quando ela me tirou da casa de meus pais, para levar-me à capital parisiense, eu tinha 11 anos. A família receberia todo mês uma mesada para poder se manter em troca de minha permanência na capital. Recebi aulas de etiqueta, piano, música, artes, matemática e francês. Tornei-me uma moça recatada e de fino trato. Em dois anos eu era um exemplo de moçoila bem educada!
Ela me levou às melhores lojas e me vestiu com esmero. Depois fez um baile para apresentar-me à sociedade. Em minha "Festa de Debutante" haviam muitos homens e algumas mulheres de alcunha duvidosa. Fui apresentada à todos, sem perceber no começo do que se tratava. Ao final do baile ela anunciou o leilão de minha virgindade e depois minha venda ao Cabaré que melhor pagasse. Fiquei desesperada quando percebi a real intenção de tudo; tentei fugir, mas a casa era bem guardada.
O leilão aconteceu e pelo burburinho percebi que eu era "uma das peças mais valiosas de sua coleção". Pagaram muito bem pela minha primeira vez. Um senhor, ouvi dizer que era um senador, foi quem me arrematou. Ele me levou para o quarto e não tardou em fazer o serviço. Fui usada de muitas maneiras e não pude reagir. Depois de uma noite inteira de aproveitamento, o senador entregou-me para a Dona de um Cabaré famoso.
O tempo todo pensei em minha família e em como voltaria pra casa. Eles precisavam do dinheiro que recebiam, então me conformei com meu destino. Cada noite, um cliente diferente desfrutava de muitas horas comigo. Por um mês eu fui novidade e fui disputada. As outras meninas diziam que eu seria como elas: apenas mais uma depois disso.
Mas, algo dentro de mim se modificou e eu passei a lutar obstinadamente pela minha vida e tornei-me diferente. Passei a seduzir e aprendi todas as artes do prazer e da luxúria. Em pouco tempo eu sabia dar a um homem tudo o que ele desejasse e tornei-me uma das preferidas do Cabaré. Após um ano, eu não era mais uma menina, eu era uma mulher sedutora e confiante. Ganhei a confiança da dona e passei a treinar outras meninas. De onde eu sabia tudo aquilo e como havia aprendido? A resposta, provavelmente, estava em outras vidas...
Após dez anos eu acumulei uma fortuna, ajudei minha família, mas nunca mais fui visitá-los, pois eu não era mais a doce menina que saiu de casa. Comprei minha liberdade e montei meu próprio Cabaré. Porém, eu fiz diferente de minha "madrinha", eu buscava as moças pobres da região, mas lhes contava a verdade sobre sua situação. Pagava um bom dinheiro à família e as levava comigo, treinava-as e lhes ensinava como não sofrer... Se houvessem meninos dispostos a ir comigo, eles se tornavam serviçais ou também podiam trabalhar na arte da sedução. Afinal, haviam mulheres dispostas a pagar muito bem por prazer.
Um dia visitei de forma disfarçada a minha madrinha, para agradecer-lhe o que fez por mim. Levei comigo cicuta e antes de sair despejei o veneno em seu chá... No outro dia eu soube que ela falecera durante a noite de mal súbito. Eu estava vingada! Não poderia ter minha antiga vida, mas ela não poderia ferir mais nenhuma menina. Esse ato, porém, não me deu paz de espírito. Eu não poderia voltar a ser a mesma pessoa mas, quem eu era, também não me deixava feliz...
Trabalhei por mais dois anos; treinei muitas meninas e escolhi uma para assumir meu lugar. Então, preparei-me para sair em viagem e fui conhecer o mundo. Eu descobri que estava com tuberculose e não teria muito tempo de vida. Minha viagem seria uma despedida de tudo. Consegui viajar por seis meses e quando estava na Índia, visitei um mosteiro... Procurei um monge e contei-lhe minha história. Ele me falou da reencarnação, do perdão e de uma nova chance. Ele me contou muitas histórias de santos e deu exemplos de grandes líderes que se transformaram.
Ele me convidou a pernoitar no mosteiro e eu morri ali, em paz, numa paz que há muito tempo eu não sentia! Quando cheguei ao outro lado eu fui recebida por outras moças com situação semelhante a minha e fui convidada a trabalhar com elas. Fui treinada e recebi uma roupagem fluídica, com um nome e uma missão: recolher as almas de outras moças perdidas. Assim, tornei-me uma Pombagira e passei a trabalhar no Plano Espiritual. Foi a forma que encontrei, de quitar minha dívida por tirar uma vida humana e de encontrar minha redenção pessoal...
Enfim... Essa é minha História. Quem eu era em Vida? Uma moça qualquer... E quem eu sou Agora? Uma Pombagira que trabalha na Madrugada!"